Entrar na quadra do COM Igara num sábado de manhã e ouvir a voz de Gustavo Endres corrigindo um saque da categoria mirim é diferente de assistir ao Endres campeão olímpico de Atenas e Pequim. Aqui ele não é o cara das medalhas. É o coordenador técnico da APAV, e está há cinco anos à frente do projeto.
Em entrevista exclusiva ao Web Vôlei e ao Ponto Multimídia, Endres falou sobre como chegou aqui, o que mudou nele, e o que ainda quer construir.
Esse projeto me deu mais do que duas Olimpíadas. Lá eu representei o Brasil. Aqui eu construo o Brasil que vai jogar nas próximas.
Da seleção pra Canoas
Endres encerrou a carreira de jogador em 2014, depois de ouro olímpico em Atenas-2004, prata em Pequim-2008, dois títulos mundiais e cinco ouros pan-americanos. Já vestindo a camisa do Vôlei Canoas, fez a transição direta pra gestão da APAV — acompanhou de dentro as três temporadas seguintes na Superliga A (até 2018). Em 2020, com a equipe disputando a Superliga C, recebeu de Almir Beltrame Filho a incumbência de assumir o comando técnico — papel que mantém até hoje.
"Eu poderia ter aceitado oferta de superliga, de seleção juvenil, de Itália, de Brasília. Mas eu vi o que tava acontecendo aqui. Vi o que o Almir e a Eliane construíram, vi a equipe se reerguendo, e percebi que era ali que eu precisava estar. Pensei: ou eu fico, ou tô deixando passar o que mais importa."
O que mudou em 5 anos
Sob coordenação do Endres, a APAV passou por uma reinvenção:
- Aprovação de 5 edições consecutivas do Projeto Escolinhas via Lei de Incentivo
- Captação de R$ 2 milhões em patrocínios e LIE nos últimos 4 anos
- Estruturação técnica — manuais de treino, periodização, avaliação
- Profissionalização da equipe — todos os técnicos com formação superior em Educação Física
- Inclusão e acessibilidade — núcleo EMEF Vitória atende alunas com deficiência auditiva, treinos em Libras
A relação com as crianças
"Eu não chego aqui como ídolo. Chego como técnico. As crianças sabem quem eu fui, mas elas precisam de quem eu sou agora — alguém que olha pra cada uma delas como possibilidade."
Endres conta que a coisa mais comum é uma criança da iniciação descobrir só depois de meses que ele jogou em Olimpíada. "A gente não pendura medalha na parede. A medalha tá no cara que vem aqui todo sábado e fala 'oi, profe'."
O que ainda quer construir
Pra os próximos cinco anos, Endres tem três objetivos claros:
- Expansão para 7 núcleos atendendo mais bairros de Canoas e cidades do Vale do Caí
- Categoria sub-19 competitiva — formando atletas pra superliga e universidades americanas
- Sustentação financeira fora da LIE — diversificação de patrocinadores e parcerias institucionais
"Lei de Incentivo é maravilhosa, mas é cíclica. Quero deixar a APAV com base de patrocinadores fixos, recorrentes, que olham pra esse projeto como investimento social de longo prazo. Aí o projeto sobrevive a qualquer governo, a qualquer mudança política."
Mensagem pra quem ainda não conhece a APAV
Vem na quadra. Sábado de manhã, COM Igara. Senta no banco e fica meia hora olhando. Você vai entender por que eu disse que esse projeto me deu mais do que duas Olimpíadas.
Reportagem produzida em parceria com o Web Vôlei e o Ponto Multimídia. Fotos de Moreno Carvalho. Para conhecer mais sobre os núcleos da APAV, acesse /nucleos.


